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Cidade esponja: o modelo urbano que ganha força para enfrentar enchentes e eventos climáticos extremos

Soluções baseadas na natureza, como parques alagáveis e pavimentos permeáveis, vêm sendo adotadas em diferentes países para reduzir alagamentos e aumentar a resiliência das cidades

Divulgação

As enchentes que atingiram diversas regiões do Brasil nos últimos anos reacenderam um debate urgente: as cidades estão preparadas para lidar com os efeitos das mudanças climáticas? Enquanto obras tradicionais de drenagem continuam sendo importantes, especialistas defendem que o futuro do planejamento urbano passa por um conceito que vem ganhando espaço em várias partes do mundo: as chamadas “cidades esponja”.

A proposta parte de uma lógica simples. Em vez de expulsar rapidamente a água da chuva por meio de galerias subterrâneas, canais e sistemas de drenagem convencionais, a cidade é projetada para absorver, armazenar e infiltrar essa água no próprio ambiente urbano.

Segundo o arquiteto Cássio Ferraz, a ideia representa uma mudança profunda na forma como as cidades se relacionam com os recursos naturais.

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“Durante décadas, construímos cidades tentando afastar a água o mais rápido possível. O conceito de cidade esponja propõe justamente o contrário: trabalhar junto com a dinâmica natural da água, permitindo que ela seja absorvida pelo solo e reduzindo os impactos das chuvas intensas”, explica.

O conceito ganhou notoriedade internacional a partir dos trabalhos do arquiteto e paisagista chinês Kongjian Yu, considerado um dos principais responsáveis pela disseminação do modelo. A China transformou a estratégia em política pública nacional após enfrentar sucessivas enchentes provocadas pela rápida urbanização de suas cidades.

Hoje, municípios chineses como Wuhan são referências na aplicação de soluções baseadas na natureza para reduzir riscos de inundação. Outros países também adotaram estratégias semelhantes. Copenhague, na Dinamarca, transformou praças e áreas públicas em espaços capazes de armazenar temporariamente grandes volumes de água durante tempestades. Já Cingapura e diversas cidades alemãs investem em telhados verdes, jardins de chuva e infraestrutura permeável.

A adoção dessas medidas encontra respaldo em pesquisas recentes. Um estudo publicado em 2024 na revista científica npj Urban Sustainability concluiu que soluções baseadas na natureza são fundamentais para o gerenciamento moderno do risco de enchentes urbanas, oferecendo benefícios simultâneos para o meio ambiente e para a qualidade de vida da população.

Além disso, o relatório World Cities Report 2024, da ONU-Habitat, alerta que as cidades estão cada vez mais expostas aos impactos climáticos, incluindo enchentes, ondas de calor e tempestades extremas, tornando indispensáveis investimentos em infraestrutura urbana resiliente.

O problema da impermeabilização

Grande parte dos alagamentos urbanos está relacionada ao excesso de superfícies impermeáveis. Ruas asfaltadas, estacionamentos, calçadas concretadas e a canalização de rios impedem que a água penetre naturalmente no solo.

“O resultado é que praticamente toda a chuva se transforma em escoamento superficial. A água corre rapidamente para as partes mais baixas da cidade, sobrecarregando galerias pluviais que muitas vezes foram projetadas para uma realidade climática completamente diferente da atual”, afirma Ferraz.

Com eventos climáticos cada vez mais intensos, esse modelo tem mostrado sinais de esgotamento.

Parques que inundam para proteger a cidade

Entre as soluções mais utilizadas pelas cidades-esponja estão os chamados parques alagáveis. Durante períodos secos, funcionam normalmente como áreas de lazer, convivência e prática esportiva. Quando ocorrem chuvas intensas, passam a atuar como reservatórios temporários, armazenando grandes volumes de água e reduzindo a pressão sobre os sistemas de drenagem.

Outras estratégias incluem pavimentos permeáveis, jardins de chuva, áreas verdes conectadas, recuperação de rios urbanos e ampliação da cobertura vegetal.

Segundo relatório publicado pela ONU-Habitat em 2025, soluções baseadas na natureza podem ser mais econômicas e sustentáveis a longo prazo do que muitas obras tradicionais de infraestrutura cinza, além de contribuírem para a mitigação de enchentes, a redução das temperaturas urbanas e a melhoria da saúde pública.

Benefícios que vão além da drenagem

Os ganhos das cidades-esponja não se limitam à prevenção de enchentes. A ampliação de áreas verdes ajuda a combater as ilhas de calor, melhora a qualidade do ar, favorece a biodiversidade e cria espaços públicos mais agradáveis para a convivência.

“Quando substituímos parte do concreto por vegetação, a cidade fica mais confortável, mais saudável e mais resiliente. São soluções que impactam diretamente a qualidade de vida das pessoas”, observa Ferraz.

Pesquisas internacionais também apontam que telhados verdes, áreas úmidas restauradas e sistemas sustentáveis de drenagem contribuem para o armazenamento de carbono, a filtragem de poluentes e a conservação dos recursos hídricos.

E o Brasil?

Embora ainda não exista uma política nacional voltada especificamente para cidades-esponja, algumas iniciativas já vêm sendo implementadas. Curitiba utiliza há décadas parques que funcionam como áreas de retenção de cheias, enquanto São Paulo ampliou a adoção de jardins de chuva em diferentes regiões da cidade.

O desafio, segundo especialistas, é ampliar essas ações e incorporá-las ao planejamento urbano de longo prazo.

“As mudanças climáticas estão tornando os eventos extremos mais frequentes e intensos. O modelo tradicional de urbanização já não responde sozinho a essa nova realidade. Adaptar as cidades para absorver a água da chuva deixou de ser uma questão ambiental e passou a ser uma questão de segurança, economia e sobrevivência urbana”, conclui Ferraz.

Diante de um cenário em que temporais históricos se tornam cada vez mais comuns, o conceito de cidade-esponja surge não apenas como uma tendência urbanística, mas como uma das principais estratégias globais para tornar os centros urbanos mais preparados para o clima do futuro.

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Escrito Por

Miguel Lucas 33 anos, Publicitário e Jornalista, amo a cultura pop, viagens e shows, criei o Agito Pop, na intenção de levar o melhor do entretenimento para a galera e agitar muito a internet.

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