Em uma época em que aplicativos de namoro facilitam conexões instantâneas, um movimento segue na direção oposta. Conhecido como boy sober, o comportamento incentiva mulheres a fazerem uma pausa voluntária nos relacionamentos amorosos e, em alguns casos, também na vida sexual, para direcionar energia ao autoconhecimento, à carreira, aos amigos e ao bem-estar emocional.
A tendência nasceu após a influenciadora norte-americana Hope Woodard compartilhar nas redes sociais que passaria um ano sem encontros, aplicativos de relacionamento ou envolvimentos amorosos. A proposta rapidamente viralizou no TikTok e passou a inspirar mulheres que decidiram interromper ciclos afetivos repetitivos para entender melhor seus próprios desejos antes de iniciar uma nova relação.
Embora nem todas utilizem o termo “boy sober”, diversas celebridades já relataram experiências semelhantes. Nos Estados Unidos, Drew Barrymore revelou que permaneceu anos sem sexo após o divórcio para se dedicar aos filhos e ao próprio crescimento pessoal. Emily Ratajkowski também afirmou que, depois do fim do casamento, preferiu focar em sua liberdade e independência antes de pensar em um novo relacionamento. A atriz Julia Fox é outra famosa que declarou estar vivendo uma fase em que prioriza a própria companhia.
No Brasil, Grazi Massafera chamou atenção ao revelar que vive um período de celibato por escolha. A atriz afirmou que a decisão trouxe mais equilíbrio e até criatividade para sua vida, destacando que a energia sexual pode ser direcionada para outros aspectos do desenvolvimento pessoal. Já Anitta também contou, em diferentes momentos, que optou por passar períodos sem relacionamentos e sem sexo como forma de fortalecer sua conexão consigo mesma e priorizar sua evolução pessoal.
Para o psiquiatra Ciro Jorge do Nascimento, especialista em saúde mental e com atuação em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), o movimento pode ser compreendido como uma resposta emocional ao excesso de estímulos e frustrações nas relações contemporâneas.
“Em muitos casos, esse tipo de pausa funciona como uma estratégia legítima de reorganização emocional. A pessoa se afasta para conseguir compreender melhor seus padrões afetivos e reduzir a repetição de experiências que geram sofrimento.”
Ele acrescenta que a decisão pode ser saudável quando feita de forma consciente, mas exige atenção para não se transformar em evitamento.
“Quando essa escolha vem acompanhada de reflexão e autoconhecimento, ela pode ser positiva. O cuidado é quando a pausa deixa de ser uma escolha e passa a ser uma forma rígida de evitar qualquer vínculo, o que pode limitar experiências emocionais importantes.”
A psicóloga Letícia de Oliveira avalia que o fenômeno dialoga com uma mudança de comportamento afetivo entre mulheres, especialmente nas gerações mais jovens.
“Existe hoje uma valorização maior do autocuidado e da saúde mental. Muitas mulheres estão repensando a ideia de que precisam estar em um relacionamento para se sentirem completas, e isso abre espaço para escolhas mais conscientes.”
Ela destaca, porém, que o significado dessa pausa depende da forma como ela é vivida.
“Quando essa decisão nasce de autoconhecimento, ela pode fortalecer a autonomia emocional e ajudar na construção de vínculos mais saudáveis no futuro. Mas quando é motivada apenas por frustração ou medo de se relacionar, pode acabar reforçando o isolamento.”
Para a psiquiatra Jessica Martani, o crescimento do movimento revela uma mudança importante na forma como muitas mulheres enxergam os relacionamentos.
“O boy sober não significa desistir do amor ou acreditar que os relacionamentos fazem mal. A proposta é interromper um ciclo de dependência afetiva ou de busca constante por validação no outro para fortalecer a relação consigo mesma. Muitas mulheres passam anos entrando de um relacionamento para outro sem compreender suas próprias necessidades emocionais. Essa pausa permite justamente esse olhar para dentro.”
Segundo a especialista, viver um período de solteirice por escolha pode trazer benefícios importantes para a saúde mental quando a decisão acontece de maneira consciente.
“Quando a pessoa escolhe ficar sozinha para se conhecer melhor, entender seus padrões de comportamento e desenvolver autonomia emocional, ela tende a construir vínculos mais saudáveis no futuro. O problema não está em estar solteira ou comprometida, mas em acreditar que a própria felicidade depende exclusivamente de um relacionamento.”
Jessica explica que esse tempo também favorece a identificação de comportamentos repetitivos que muitas vezes passam despercebidos.
“É comum percebermos pessoas que repetem o mesmo tipo de relacionamento, escolhem parceiros semelhantes ou permanecem em relações insatisfatórias por medo da solidão. Uma pausa pode oferecer espaço para refletir sobre esses padrões e fazer escolhas mais conscientes daqui para frente.”
Para a psiquiatra, o sucesso do movimento também acompanha uma mudança cultural, principalmente entre as gerações mais jovens.
“Hoje existe uma valorização maior da saúde mental e do autocuidado. Cada vez mais mulheres entendem que construir uma boa relação consigo mesmas não é egoísmo, mas uma etapa importante antes de compartilhar a vida com outra pessoa. O relacionamento deixa de ser uma necessidade e passa a ser uma escolha.”
Ao mesmo tempo, ela faz um alerta para que a proposta não seja confundida com isolamento emocional.
“Existe uma diferença entre escolher um período de pausa e desenvolver medo de se relacionar novamente. Quando essa decisão nasce de traumas não elaborados ou de uma tentativa de evitar qualquer envolvimento afetivo, ela deixa de ser saudável. O objetivo do boy sober não é fechar portas para o amor, mas fazer com que ele aconteça de forma mais madura e menos baseada em carências.”
Em um cenário em que a pressão para estar sempre acompanhado ainda faz parte da realidade de muitas mulheres, o movimento propõe uma inversão de perspectiva: antes de procurar alguém para completar a própria vida, vale a pena descobrir quem se é quando não existe ninguém ocupando esse espaço.
Miguel Lucas 33 anos, Publicitário e Jornalista, amo a cultura pop, viagens e shows, criei o Agito Pop, na intenção de levar o melhor do entretenimento para a galera e agitar muito a internet.
