Em meio à rotina intensa das redes sociais e à pressão constante por produtividade, um hobby considerado quase “analógico” tem conquistado cada vez mais espaço entre celebridades. A influenciadora Amanda Kimberlly foi a mais recente a compartilhar esse lado pouco conhecido da rotina ao mostrar aos seguidores o resultado de três meses de aulas de cerâmica e exibir as primeiras peças produzidas por ela.
Amanda não está sozinha. Recentemente, a atriz Alice Wegmann também revelou que passou a frequentar aulas de cerâmica no Rio de Janeiro. Antes delas, artistas como Brad Pitt, Seth Rogen, Selena Gomez, Shay Mitchell e o casal Brooklyn Beckham e Nicola Peltz já haviam mostrado que encontraram na argila uma forma de desacelerar, estimular a criatividade e se desconectar, ainda que por algumas horas, da rotina dominada por telas e compromissos.
Mais do que uma tendência entre famosos, especialistas afirmam que o interesse crescente por atividades manuais acompanha uma mudança de comportamento observada em diferentes públicos. Em um cenário marcado por excesso de informações, notificações e exposição constante, hobbies como cerâmica, pintura e bordado têm sido cada vez mais procurados por proporcionarem momentos de presença, concentração e descanso mental.
Segundo Juliana Nasasi, arteterapeuta da Desvirtua e especialista em Expressão Criativa Simbólica de Criadores de Conteúdo, não é coincidência que a cerâmica esteja atraindo pessoas que convivem diariamente com altos níveis de estresse.
“A cerâmica trabalha com um material extremamente tátil, que oferece resistência, mas também cede ao toque. A argila pode ser apertada, amassada, rasgada e reconstruída. Para pessoas que vivem sob estresse constante, essa característica é especialmente importante porque desloca a atenção do excesso de pensamentos para a experiência corporal, ajudando a regular o sistema nervoso e a lidar com emoções como raiva, frustração e confusão mental.”
Além do aspecto sensorial, a especialista explica que a atividade favorece um ritmo completamente diferente daquele imposto pelo ambiente digital, onde quase tudo acontece de forma instantânea.
“A cerâmica pode ser considerada uma atividade artística ou um hobby terapêutico, mas a arteterapia é uma abordagem clínica conduzida por um profissional qualificado, com foco no autoconhecimento ou na reabilitação. Nesse caso, o objetivo não é produzir uma peça bonita, mas compreender o processo, porque ele pode trazer revelações sobre o mundo interno da pessoa.”
Enquanto as redes sociais estimulam respostas rápidas, comparação constante e busca por validação, a argila convida ao contrário: exige paciência, experimentação e aceitação dos erros como parte do aprendizado.
“Atividades como cerâmica, pintura e bordado oferecem um contraponto à hiperconectividade e ao excesso de estímulos. Elas proporcionam experiências sensoriais, afetivas, simbólicas e cognitivas que favorecem presença, desaceleração e regulação emocional.”
Segundo Juliana, esse também é um dos motivos que explicam o interesse crescente de artistas e influenciadores pela prática.
“Essas atividades ensinam a lidar com o tempo, com a imperfeição e com o erro como partes naturais do processo criativo, ajudando a reduzir a pressão por desempenho e aprovação externa, algo muito comum nas redes sociais.”
Ela ressalta, porém, que hobbies artísticos não substituem acompanhamento especializado quando existe sofrimento psíquico importante.
“Podemos afirmar que hobbies artísticos favorecem momentos de presença, expressão emocional e criatividade. Eles ajudam a desacelerar o ritmo, reduzir o estresse e ampliar a percepção de competência e realização pessoal. Porém, não substituem acompanhamento psicológico ou psiquiátrico quando existe sofrimento intenso, persistente ou que comprometa a vida cotidiana, como em casos de transtornos de ansiedade, depressão ou outras condições de saúde mental.”
Para quem trabalha produzindo conteúdo para a internet, cultivar um hobby completamente desvinculado das redes sociais pode representar um importante fator de proteção emocional.
Segundo Jhoanne Hansen, psicóloga da Desvirtua e especialista em Saúde Mental de Criadores de Conteúdo, influenciadores enfrentam um desafio particular: muitas vezes, trabalho, lazer e vida pessoal acontecem no mesmo ambiente digital.
“Trabalhar com criação de conteúdo muitas vezes exige presença constante do profissional, e ele acaba tendo dificuldade em se distanciar do trabalho. Ao cultivar um hobby que não conversa com sua profissão, o influenciador tem a oportunidade de recuperar sua energia, criar uma pausa real e, consequentemente, preservar sua saúde mental.”
No caso de Amanda Kimberlly, que passou meses praticando cerâmica antes de mostrar o resultado aos seguidores, a especialista acredita que manter essa atividade longe da exposição pública também faz diferença.
“A exposição constante nas redes costuma gerar no influenciador uma autocobrança exagerada, fazendo com que ele sinta necessidade de manter uma performance adequada para atender às expectativas do público. Quando esse hobby fica fora das redes sociais, existe a oportunidade de realizar aquela atividade de forma mais genuína, sem a pressão do olhar externo e sem o custo psíquico da autocobrança.”
Jhoanne explica que essa dificuldade de estabelecer limites é uma realidade frequente entre criadores de conteúdo.
“Quando pensamos em um trabalho convencional, é mais fácil para o profissional ter hobbies fora do ambiente de trabalho e preservar os limites da vida pessoal. Para um influenciador, essa separação fica comprometida, porque a rede social é seu escritório, mas também é o lugar onde ele socializa, se diverte e aprende. Isso pode gerar a sensação de que nunca para de trabalhar, até mesmo quando está apenas consumindo um conteúdo.”
Por isso, ela recomenda que influenciadores busquem atividades que aconteçam fora do universo digital.
“Hobbies fora do ambiente virtual ajudam a delimitar o que é trabalho e o que é vida pessoal, principalmente aqueles que envolvem movimento do corpo, contato com materiais ou conexão com a natureza.”
A psicóloga faz apenas um alerta: o hobby deixa de cumprir seu papel quando passa a ser encarado como mais uma obrigação ou estratégia de produção de conteúdo.
“O problema está na obrigação. Quando pensamos em um hobby, seu principal objetivo é produzir prazer e bem-estar. Ao se tornar mais uma atividade obrigatória dentro da rotina de um influenciador, ele deixa de cumprir essa função e passa a ser mais um fator de estresse.”
Segundo ela, o mais importante é observar como a atividade faz a pessoa se sentir.
“O profissional precisa estar atento a como se sente durante esse processo. Ao observar sinais de angústia ou cobrança excessiva, talvez seja o momento de repensar o papel daquela atividade de lazer.”
O interesse de Amanda Kimberlly, Alice Wegmann e de nomes internacionais como Brad Pitt, Seth Rogen e Selena Gomez evidencia uma tendência que vai além da estética ou da moda. Em uma época em que praticamente tudo acontece diante das telas, reservar algumas horas para criar com as próprias mãos tem se tornado uma forma de desacelerar, recuperar a criatividade e fortalecer a saúde mental. Para especialistas, esse talvez seja o maior valor da cerâmica: oferecer um espaço onde o resultado importa menos do que a experiência de simplesmente estar presente.
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Miguel Lucas 33 anos, Publicitário e Jornalista, amo a cultura pop, viagens e shows, criei o Agito Pop, na intenção de levar o melhor do entretenimento para a galera e agitar muito a internet.