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Paula Parisot leva ao Rio e a Buenos Aires exposições sobre o poder de tomar a palavra

Com duas mostras em cartaz, artista transforma experiências individuais em uma reflexão sobre memória, silenciamento, relações de poder e o direito de cada indivíduo contar a própria história

Divulgação

Com duas exposições em cartaz, “Sim, é verdade”, no Largo das Artes, no Rio de Janeiro, e “E eu me levanto para contar uma história”, no Espaço Cultural Palacio Pereda, em Buenos Aires, Paula Parisot transforma experiências individuais em uma reflexão sobre poder e o direito à própria história.

As duas mostras partem de elementos autobiográficos, mas avançam sobre uma questão mais ampla e urgente: quem pode falar, quem consegue ser ouvido e quem detém o poder de determinar quais histórias permanecerão na memória.

Em tempos marcados pela desinformação, pela violência e pela disputa de narrativas, tomar a palavra deixa de ser apenas um gesto individual. Pode se tornar também uma forma de resistência.

Pinturas e trabalhos audiovisuais compõem uma produção em que o corpo aparece como território de memória e disputa. Parisot parte de vivências pessoais, mas seu interesse está justamente no ponto em que uma experiência particular encontra questões coletivas, como silenciamento, violência, perda, pertencimento e relações de poder atravessadas por gênero, raça e classe.

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Levantar-se para contar

Na obra de Parisot, levantar-se é permanecer quando se espera o desaparecimento. É recuperar a voz quando outros tentam falar em seu lugar. E contar não significa apenas recordar. Significa também denunciar, resistir à injustiça e enfrentar o apagamento.

Narrar, nesse contexto, é uma forma de poder. Quem pode contar a própria história participa da construção da memória. Quem é impedido de fazê-lo corre o risco de ter sua experiência silenciada, distorcida ou esquecida.

Essa discussão encontra ressonância na própria trajetória da artista. Há dez anos, após a morte do pai de seus filhos, Parisot enfrenta uma extensa disputa familiar e judicial envolvendo patrimônio, herança e os direitos das crianças.

O conflito envolve seu ex-cunhado, o empresário Eduardo Haber, cofundador do banco Nomad. A disputa sucessória ganhou novos contornos após Eduardo adquirir os direitos hereditários de sua irmã, Bruna Haber, uma mulher trans, filha do doleiro Roger Haber com uma mulher que trabalhava como cozinheira na casa da família.

Enquanto isso, os filhos de Parisot, que perderam o pai ainda crianças, permanecem no centro de uma longa disputa relacionada aos próprios direitos e patrimônio.

Mais recentemente, o conflito ultrapassou a esfera patrimonial. Parisot possui medidas protetivas de caráter físico e digital no contexto da disputa. Segundo fontes que acompanham os litígios, Eduardo Haber também teria recorrido à Justiça argentina buscando restringir manifestações da artista à imprensa.

Vida e obra se aproximam, aqui, sem se confundirem. A questão deixa de ser apenas quem pode falar e passa a incluir quem dispõe dos instrumentos econômicos, jurídicos e simbólicos para ocupar o espaço da narrativa e quem precisa lutar para não ser apagado dela.

A investigação artística de Parisot, porém, ultrapassa sua história familiar. Seu olhar se volta para mulheres, corpos feminizados e grupos historicamente submetidos a diferentes formas de violência e silenciamento, atravessadas por gênero, raça e classe.

Não se trata apenas de representar a vulnerabilidade. O que interessa à artista é também aquilo que acontece depois dela: a resistência, a reconstrução e a possibilidade de transformar uma experiência individual em ação coletiva.

Parisot não oferece respostas prontas. Em vez disso, deixa perguntas: quem conta nossa história quando nossa voz é retirada da narrativa? O que acontece com aquilo que não pôde ser dito? E o que muda quando alguém historicamente colocado à margem ocupa, finalmente, o lugar de autor da própria história?

Algumas histórias sobrevivem porque alguém rompe o silêncio e decide contá-las. E algumas transformações começam justamente nesse gesto.

Exposição: E eu me levanto para contar uma história
Artista: Paula Parisot
Local: Espaço Cultural Palacio Pereda, Buenos Aires, Argentina
Visitação: até 17 de outubro de 2026

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Escrito Por

Miguel Lucas 33 anos, Publicitário e Jornalista, amo a cultura pop, viagens e shows, criei o Agito Pop, na intenção de levar o melhor do entretenimento para a galera e agitar muito a internet.

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